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Cristianismo e humanismo hoje e no passado


Por Gabriel Garcia




“Há no país uma legenda, que ladrão se mata com tiro”. A constatação parece tirada de um tuíte ou de um textão do Facebook dos anos 2000, mas remonta ao poema de Drummond “Morte do Leiteiro”, publicado em 1945. Os versos amargos narram a morte de um pobre, possivelmente um favelado, assassinado enquanto trabalhava. Trata-se de uma história tão repetida nos anos 2000, que soa como uma mazela dos nossos tempos, mas que não é nada mais do que a nova roupagem de um discurso que perpassa a nossa história.


A violência perpetrada pelos que ocupam espaços de poder está arraigada em nossa civilização. Uns 2 mil anos atrás, inclusive, nasceu um cara que decidiu enfrentar essas estruturas opressoras, dando a própria vida se preciso. E foi preciso. Ele foi assassinado injustamente, enquanto o povo pedia a sua morte. Gritavam algo parecido com “tem que matar esse vagabundo”, “bandido bom é bandido morto”. Pregaram seu corpo numa cruz e como abutres se alegravam com o sangue que escorria das feridas. Foi depois disso que, vencendo a morte, Jesus de Nazaré se tornou o Cristo.


Em tempos de fundamentalismo religioso, as histórias parecem desconexas. Somos levados a crer que a morte do leiteiro de Drummond não tem nenhuma relação com a morte do Cristo. Que a vida humana não tem um valor intrínseco e inalienável. Que Cristo não habitava o corpo do leiteiro. Que não há universalidade na dignidade da pessoa. Que direitos humanos não devem existir.


O mais curioso é que a origem desse “pessoal dos direitos humanos” é a própria compreensão cristã. Pode parecer esquisito, mas os primeiros a professarem a defesa da vida, da liberdade e da integridade foram os seguidores de Jesus. Vêm dos cristãos as seguintes constatações: toda mulher e todo homem têm a mesma dignidade para Deus[1]; portanto, a Boa Notícia é universal, para todos[2]; e, assim, a vida é direito básico de todo ser humano[3].


No fundo não é tão estranho. Nem poderia ser diferente, aliás. No fim da Idade Média, foram os valores cristãos que fundamentaram as revoluções que estavam por vir e que reconheceram os direitos básicos de todo cidadão[4]. À época, o jusnaturalismo incipiente proclamava que a mulher e o homem são naturalmente dotados de direitos, sendo esses direitos decorrentes unicamente de sua humanidade. Em outras palavras: basta ser humano para ter direitos. É a tradução laica da premissa cristã “todo ser humano é filho de Deus”.


A Declaração de Independência dos EUA, por exemplo, datada de 1776, é explícita na relação entre a condição de filho de Deus e o reconhecimento de direitos[5]. Na França, por outro lado, a teoria se desenvolveu em termos laicos, embora também bastante influenciada pela Igreja[6]. Apesar das variações de cada país, porém, fato é que o cristianismo, em sua doutrina, é absolutamente incompatível com o desprezo pelos direitos humanos.


É estarrecedor constatar que nos anos 2000 não há muito de novo. A racionalidade se recolhe e a violência se projeta. O velho discurso, mas com uma roupa moderninha. É nosso papel, no entanto, preservar a originalidade de nossa mensagem, seja lá de qual doutrina ela for. Católicos, evangélicos, umbandistas, kardecistas e tantos outros, cristãos ou não. São os nossos valores que sustentam a nossa existência. Apropriar-se disso é reconhecer o que nos identifica como humanos.

[1] At 10, 34-35; Rm 2, 11; Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 144. [2] Jo 4; Ef 2, 14.17-18; Gl 3, 26-28. [3] Jo 10, 10. [4] BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional Contemporâneo. 9ª ed., p. 232-233. [5] “Nós entendemos que essas verdades são evidentes, que todos os homens são criados iguais, que eles são dotados pelo seu Criador de alguns direitos inalienáveis” Preâmbulo da Declaração de Independência dos EUA, tradução livre. [6] FERREIRA, Carlos Henrique Ruiz. O Cristianismo E Os Direitos Humanos – Em Torno Dos Princípios Da Igualdade Entre Os Homens E A Universalidade. 2010.

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